O que acontece quando a IA começa a decidir quais marcas conhecemos?
Pesquisas recentes sobre AI visibility estão justamente começando a investigar essa diferença entre ser citado e ser recomendado.
ESPECIAL
Rayan
9/18/20267 min read


Imagine que você esteja procurando um notebook novo.
Em vez de abrir o Google, comparar dezenas de resultados, entrar em alguns sites e assistir a vídeos no YouTube, você simplesmente pergunta:
"Qual notebook devo comprar?"
A resposta vem em segundos.
A inteligência artificial apresenta cinco modelos, explica as diferenças, aponta vantagens e desvantagens e, dependendo da ferramenta, pode até indicar qual deles escolheria.
Nesse momento, uma mudança importante aconteceu.
A disputa pela atenção deixou de acontecer apenas entre os resultados de uma página de busca. Agora, existe uma etapa anterior: convencer a própria inteligência artificial de que sua marca merece aparecer naquela resposta.
É uma mudança sutil, mas com consequências enormes para o marketing.
De "aparecer" para "ser recomendado"
Durante décadas, uma das principais perguntas do marketing digital foi relativamente simples:
"Como fazer minha marca aparecer no Google?"
O SEO nasceu e evoluiu em torno dessa lógica.
Palavras-chave, backlinks, autoridade de domínio, conteúdo, velocidade, estrutura técnica e uma série de outros fatores foram utilizados para aumentar as chances de uma página aparecer entre os primeiros resultados.
Mas os mecanismos de busca baseados em IA adicionam uma nova camada.
Quando alguém pergunta "qual notebook devo comprar?", a resposta não precisa apresentar 10 links.
Ela pode apresentar cinco opções.
A inteligência artificial faz uma seleção antes de entregar o resultado ao usuário.
É justamente aí que começa uma diferença importante entre visibilidade e recomendação.
Uma marca pode ser conhecida por uma IA e ainda assim não aparecer quando alguém pede uma recomendação.
A IA pode conhecer sua marca e mesmo assim ignorá-la
Uma pesquisa publicada em julho de 2026 pela Victorious encontrou exatamente esse tipo de diferença.
Em um estudo com 175 marcas de cinco setores, os pesquisadores testaram diferentes sistemas de IA para descobrir se eles reconheciam as empresas quando perguntados diretamente sobre elas.
O resultado foi alto: 96% das marcas avaliadas foram reconhecidas corretamente.
Mas o cenário mudou quando a pergunta deixou de ser "o que é essa marca?" e passou a ser uma pergunta de pesquisa de categoria, mais próxima do comportamento de um consumidor.
Nesse caso, 89% das marcas analisadas não apareceram nas respostas geradas pelas IAs.
Ou seja:
A IA pode saber quem você é sem necessariamente considerar que você deve ser apresentado ao consumidor.
Essa diferença é provavelmente uma das questões mais interessantes que o marketing digital terá de acompanhar nos próximos anos.
Ser citado não é necessariamente ser recomendado
Existe ainda outra distinção importante.
Imagine que alguém pergunte:
"Quais são as melhores ferramentas de automação de marketing?"
Sua empresa pode aparecer porque algum site citado pela IA mencionou sua marca.
Isso é visibilidade.
Mas existe um segundo cenário.
A IA poderia responder:
"Se você é uma pequena empresa e precisa automatizar o atendimento pelo WhatsApp, eu consideraria estas três opções..."
E colocar sua empresa entre elas.
Isso é muito mais próximo de uma recomendação.
A diferença parece pequena, mas muda a natureza da disputa.
No primeiro caso, você precisa fazer parte do conjunto de informações que a IA encontra e considera relevante.
No segundo, precisa estar associada ao contexto específico em que a IA acredita que sua marca faz sentido.
Pesquisas recentes já começaram a medir essa diferença.
Um estudo publicado em junho de 2026 analisou mais de 100 mil respostas de sistemas de IA envolvendo mais de 100 marcas. O trabalho encontrou diferenças significativas na frequência com que marcas são mencionadas em respostas geradas por IA, além de mostrar que a visibilidade varia bastante de acordo com o tamanho e a maturidade da marca.
O estudo também aponta que as fontes utilizadas pelas IAs não se limitam aos sites das próprias empresas. YouTube, Reddit, veículos editoriais, Wikipedia e outros ambientes aparecem como fontes importantes em diferentes contextos.
Isso cria uma consequência importante:
Sua presença digital começa a ser construída também fora do seu próprio site.
A reputação da marca começa a virar dado
No modelo tradicional de SEO, existe uma certa vantagem em pensar na própria página como o principal ativo.
Você publica um conteúdo, otimiza, conquista links e tenta melhorar sua posição.
No ambiente de IA, a lógica pode ser mais distribuída.
A inteligência artificial pode encontrar informações sobre uma empresa em dezenas de lugares diferentes.
Uma avaliação.
Um vídeo.
Uma matéria.
Um ranking.
Um fórum.
Um comparativo.
Uma página de produto.
Uma discussão no Reddit.
Um conteúdo publicado por um especialista.
Tudo isso pode ajudar a formar o contexto que o modelo utiliza para responder a uma pergunta.
Uma análise da Ahrefs com 75 mil marcas encontrou uma forte correlação entre menções no YouTube e visibilidade de marcas em diferentes experiências de IA, além de uma relação relevante com menções à marca na web.
Isso não significa que exista uma fórmula simples como "publique 10 vídeos e sua marca será recomendada".
Não existe, pelo menos por enquanto, uma receita universal.
Mas indica que a construção de autoridade está ficando mais distribuída.
O problema: a recomendação também pode mudar
Existe outro detalhe que torna tudo ainda mais interessante.
A resposta de uma IA não é necessariamente fixa.
Uma pesquisa publicada em setembro de 2026 avaliou 1.536 respostas de ChatGPT, Gemini e Google AI Overviews para perguntas comerciais sobre produtos.
Os pesquisadores encontraram diferenças relevantes entre as plataformas e também entre respostas repetidas para perguntas semelhantes. No estudo, os domínios apresentados como fontes pelo ChatGPT e pelo Gemini tiveram apenas 5,4% de sobreposição média entre as interfaces analisadas.
Isso significa que duas pessoas fazendo perguntas aparentemente semelhantes podem receber conjuntos diferentes de referências e recomendações.
Para o marketing, isso é importante.
Não estamos falando de uma nova posição "número 1" que pode ser acompanhada diariamente em uma ferramenta de SEO.
Estamos falando de um sistema probabilístico e contextual.
A marca pode aparecer em uma situação e desaparecer em outra.
Pode ser citada quando o usuário pergunta sobre preço, mas não quando pergunta sobre qualidade.
Pode aparecer quando a pessoa procura uma opção para pequenas empresas, mas não quando procura uma solução para grandes empresas.
O novo SEO talvez seja mais sobre contexto
Pesquisadores de Princeton já haviam apresentado, em 2024, o conceito de Generative Engine Optimization, ou GEO, para estudar justamente como conteúdos podem aumentar sua visibilidade nas respostas de mecanismos generativos.
O estudo mostrou que diferentes estratégias de otimização podem aumentar a visibilidade de uma fonte em respostas geradas por IA, embora os resultados variem de acordo com o domínio e o contexto.
Desde então, termos como GEO, AEO e AI Search Visibility passaram a aparecer cada vez mais nas discussões sobre marketing.
Mas talvez a pergunta mais interessante não seja:
"Como fazer SEO para o ChatGPT?"
Ela seja:
"Que informações sobre a minha marca precisam existir na internet para que uma IA consiga entender onde ela se encaixa?"
Isso muda a estratégia.
Uma empresa não deveria pensar apenas em produzir páginas para determinadas palavras-chave.
Ela precisa também construir associações.
Marca + categoria.
Marca + problema.
Marca + público.
Marca + diferencial.
Marca + localização.
Marca + produto.
Marca + casos de uso.
Quanto mais clara for essa associação em diferentes fontes, mais material existe para os sistemas de IA construírem uma representação daquela empresa.
E isso muda até a lógica da autoridade
Durante muito tempo, autoridade digital esteve muito ligada a backlinks, domínio e posição nos mecanismos de busca.
Esses sinais continuam relevantes.
Mas a ascensão das buscas generativas adiciona outra pergunta:
"Outras fontes confiáveis falam sobre essa marca?"
Essa diferença é importante porque uma empresa pode dizer qualquer coisa sobre si mesma em seu próprio site.
Uma IA, por outro lado, pode procurar confirmação em outras fontes.
É por isso que avaliações, matérias, vídeos, comparativos e menções independentes podem ganhar ainda mais importância.
Não significa simplesmente "conseguir aparecer em qualquer lugar".
A qualidade e o contexto das fontes também importam.
E existe um alerta importante aqui: visibilidade não é sinônimo de credibilidade. Pesquisas recentes também chamam atenção para possíveis vieses nas recomendações produzidas por modelos de linguagem, reforçando a necessidade de verificar as informações apresentadas por uma IA antes de tratá-las como uma avaliação independente.
O que as marcas deveriam começar a acompanhar?
Se o consumidor está começando a perguntar para uma IA antes de pesquisar diretamente uma empresa, algumas métricas tradicionais podem não contar toda a história.
Além de tráfego, posição no Google e volume de buscas pela marca, começa a fazer sentido acompanhar perguntas como:
A IA reconhece minha marca?
Em quais categorias ela me coloca?
Quais concorrentes aparecem junto comigo?
Quando alguém pergunta "qual a melhor opção para X?", minha marca aparece?
Quais fontes a IA utiliza para falar sobre minha empresa?
Minha marca aparece apenas quando o usuário cita meu nome ou também aparece em pesquisas genéricas?
E, talvez a mais importante:
Quando minha marca aparece, como ela é descrita?
Porque existe uma diferença enorme entre ser mencionado e ser associado ao atributo que você quer construir.
Uma marca pode ser lembrada.
Mas pode ser lembrada pelo motivo errado.
O próximo campo de disputa
O Google não desapareceu.
O SEO também não.
Mas a jornada de descoberta está ficando mais complexa.
Uma pessoa pode pesquisar no Google, assistir a um vídeo no YouTube, perguntar ao ChatGPT, comparar produtos no Gemini e voltar para um site antes de comprar.
Em cada uma dessas etapas, sistemas diferentes podem decidir quais marcas aparecem.
É aí que surge uma nova disputa pela atenção.
Não basta apenas estar bem posicionado.
É preciso ser compreendido.
Não basta ser conhecido.
É preciso ser relevante para determinada pergunta.
E não basta ser citado.
Existe uma diferença entre aparecer na resposta e ser uma das opções que a inteligência artificial considera quando alguém pergunta:
"Qual você recomenda?"
Talvez essa seja uma das maiores mudanças do marketing na era da IA.
Durante anos, as marcas trabalharam para conquistar posições nas páginas de resultados.
Agora, começam a disputar espaço dentro da própria resposta.
E, quando a IA começa a decidir quais cinco marcas chegam primeiro à cabeça do consumidor, a pergunta deixa de ser apenas "como aparecer no Google?".
Passa a ser:
"Como fazer a inteligência artificial entender por que minha marca deveria estar aqui?"