Do 18 de setembro ao futuro: por que o Chile também virou um dos polos de tecnologia da América Latina
Hoje, 18 de setembro, o Chile para.
ESPECIAL
Rayan
9/18/20265 min read


Hoje, 18 de setembro, o Chile para.
As ruas ganham bandeiras, as famílias se reúnem, a cueca aparece por todos os lados e as fondas se tornam protagonistas da celebração.
É o 18 de setembro, uma das datas mais importantes do calendário chileno.
Mas existe uma história interessante por trás dessa data que vai muito além das festas.
O 18 de setembro de 1810 marcou a formação da Primeira Junta Nacional de Governo, um acontecimento que iniciou o processo que levaria à independência do Chile. A independência seria proclamada posteriormente, em 12 de fevereiro de 1818.
Mais de dois séculos depois, o país continua construindo sua própria história.
Só que agora a disputa não acontece apenas no campo político ou territorial.
Acontece também no digital.
Um país pequeno que aprendeu a pensar grande
Com pouco mais de 19 milhões de habitantes, o Chile não possui o maior mercado consumidor da América Latina.
Não tem a população do Brasil.
Não tem o tamanho territorial do México.
Não tem o volume de consumidores de grandes mercados da região.
Mesmo assim, conseguiu construir um ecossistema de inovação que chama atenção internacionalmente.
Uma das principais razões está justamente na capacidade do país de funcionar como um ambiente de experimentação.
O próprio governo chileno promove o país como uma plataforma para empresas que querem testar modelos de negócio e, a partir daqui, expandir para outros mercados latino-americanos.
E existe uma iniciativa que simboliza muito bem essa estratégia.
Start-Up Chile
Criado pela CORFO, o Start-Up Chile ajudou a transformar o país em um ponto de entrada para empreendedores de diferentes partes do mundo.
A proposta nunca foi simplesmente criar startups chilenas.
Era mais ambiciosa:
trazer empreendedores para o Chile, conectar essas empresas ao ecossistema local e criar condições para que elas pudessem crescer a partir daqui.
Os números ajudam a dimensionar esse impacto.
Segundo o próprio Start-Up Chile, as startups de seu portfólio já geraram mais de US$ 2 bilhões em vendas globalmente e levantaram aproximadamente US$ 2,05 bilhões em capital. A carteira de empresas apoiadas alcança uma valorização superior a US$ 5,8 bilhões.
Ou seja, a estratégia não ficou restrita a programas públicos ou eventos de empreendedorismo.
Algumas das empresas que passaram pelo ecossistema chegaram a mercados internacionais.
Santiago entrou no mapa global das startups
A capital também ganhou relevância nesse processo.
De acordo com o Global Startup Ecosystem Index 2026, da StartupBlink, Santiago aparece como o 72º ecossistema de startups do mundo e o 3º da América do Sul.
A cidade reúne cerca de 761 startups e possui um ecossistema estimado em US$ 13,5 bilhões.
Fintech é atualmente o principal setor de startups da cidade, com 107 empresas identificadas pela plataforma.
No ranking nacional, o Chile aparece em 3º lugar na América do Sul e em 39º no mundo em ecossistema de startups.
São números que mostram uma característica interessante do país:
o Chile não precisa ter o maior mercado para ser relevante na inovação.
Ele precisa conseguir criar um ambiente onde novas empresas consigam testar, captar investimento e acessar outros mercados.
E a inteligência artificial?
Talvez seja justamente nesse ponto que o Chile esteja construindo uma das suas apostas mais interessantes.
O país aparece em posição de destaque no desenvolvimento de inteligência artificial na América Latina.
O Índice Latino-Americano de Inteligência Artificial de 2024, elaborado pelo CENIA e pela CEPAL com apoio de organizações como UNESCO, Google e Microsoft, colocou o Chile na primeira posição regional.
O país também possui uma Política Nacional de Inteligência Artificial, criada em 2021 e atualizada em 2024.
Existe ainda uma infraestrutura importante por trás desse movimento.
O Chile já é considerado um dos principais mercados de data centers da América Latina, algo fundamental para uma economia que depende cada vez mais de computação, armazenamento de dados e inteligência artificial.
É uma combinação importante:
infraestrutura + capital + startups + políticas públicas + acesso a mercados internacionais.
Um país que funciona como laboratório
Talvez essa seja uma das melhores formas de entender o papel do Chile na tecnologia latino-americana.
O país funciona, em muitos casos, como um laboratório.
Uma startup pode testar um produto em um mercado relativamente sofisticado, validar seu modelo, aprender com os consumidores e depois buscar expansão para outros países.
Isso ajuda a explicar por que empresas de diferentes setores escolheram o Chile como ponto de partida ou expansão.
E alguns nomes já se tornaram conhecidos fora do país.
NotCo levou inteligência artificial e tecnologia para o setor de alimentos.
Buk construiu uma plataforma de gestão de pessoas que se expandiu pela América Latina.
Xepelin atua na área financeira.
SimpliRoute trabalha com logística.
São empresas diferentes, mas existe algo em comum:
problemas locais foram transformados em produtos capazes de atravessar fronteiras.
E talvez essa seja a parte mais interessante
Existe uma certa contradição no Chile.
É um país relativamente pequeno em população.
Mas pensa em escala regional.
Essa característica aparece tanto na política de atração de investimentos quanto na estratégia de startups.
Em vez de perguntar apenas:
"Como criar uma grande empresa para o mercado chileno?"
A pergunta passa a ser:
"Como criar uma empresa no Chile que possa atender a América Latina e, eventualmente, o mundo?"
Essa mentalidade ajuda a explicar por que o ecossistema conseguiu ganhar relevância mesmo competindo com mercados muito maiores.
A própria InvestChile destaca que o país funciona como uma plataforma de entrada para a América Latina e aponta Chile, Brasil, México e Colômbia entre os principais ecossistemas de startups da região.
Do Chile de 1810 ao Chile de 2026
O 18 de setembro representa uma parte fundamental da história chilena.
É uma celebração que nasceu de um processo político iniciado em 1810 e que, ao longo de mais de dois séculos, se transformou em uma das maiores manifestações culturais do país.
Mas talvez exista uma outra maneira de olhar para essa data.
A independência não foi apenas um acontecimento histórico.
Ela marcou o início da construção de um país.
E o Chile continua fazendo isso.
Hoje, essa construção passa também por tecnologia, ciência, inteligência artificial, empreendedorismo e inovação.
O país que durante décadas construiu sua identidade em torno de características como estabilidade, abertura econômica e integração internacional agora tenta transformar essas mesmas características em vantagens para a economia digital.
E os resultados começam a aparecer.
Em 2025, a carteira de projetos de investimento estrangeiro acompanhada pela InvestChile chegou a US$ 65,7 bilhões, distribuídos em 463 projetos em diferentes estágios de desenvolvimento.
Ao mesmo tempo, Santiago se consolidou entre os principais ecossistemas de startups da América do Sul, enquanto o Chile mantém uma posição de destaque regional em inteligência artificial.
Não significa que o Chile seja o maior polo tecnológico da América Latina.
Brasil, México e outros mercados possuem ecossistemas muito maiores em determinados segmentos.
Mas existe algo particularmente interessante na estratégia chilena:
transformar um país pequeno em uma plataforma para testar ideias grandes.
Um 18 de setembro olhando para frente
Enquanto hoje o país celebra sua história com cueca, empanadas, asados, bandeiras e fondas, existe uma outra história sendo construída ao mesmo tempo.
Uma história feita por programadores, pesquisadores, empreendedores, investidores e startups.
Uma história que acontece em escritórios, universidades, centros de pesquisa e servidores.
E que não termina nas fronteiras do Chile.
Talvez essa seja uma das características mais interessantes do país atualmente.
O Chile não está apenas olhando para o seu passado.
Também está tentando construir um lugar relevante no futuro tecnológico da América Latina.
Feliz 18 de setembro, Chile.
Que a próxima etapa dessa história seja tão ambiciosa quanto a que começou há mais de 200 anos.